O aumento do poder aquisitivo do brasileiro e novas oportunidades de crédito movimentaram a economia nos últimos anos. Um dos sinais da prosperidade é o aumento na frota de motos, que cresceu 27% em quatro anos, de acordo com o Denatran – Departamento Nacional de Trânsito. Tal crescimento, porém, veio acompanhado de um dado nada agradável: a quantidade de mortes em acidentes de trânsito com motociclistas foi 21% maior de 2008 para 2011, segundo o Ministério da Saúde.
E, nos últimos 15 anos, o salto é de aterrorizantes 800%. Pela primeira vez na história, o número de vítimas fatais sobre duas rodas superou o de pedestres e de ocupantes de carros ou ônibus no trânsito, com 5,7 contra 5,1 e 5,4 mortes, respectivamente, a cada 100 mil habitantes, em 2011. São mais de 12 mil mortes por ano, o que eleva os motociclistas brasileiros aos que mais morrem no mundo, perdendo proporcionalmente apenas para o Paraguai. No Brasil, moto rima com morte.
No entanto, para o diretor-executivo da Associação Brasileira dos Fabricantes de Motos, a Abraciclo, José Eduardo Gonçalves, vendas e mortes não podem ser relacionadas. Ele considera a qualidade dos condutores mais determinante que a quantidade. "A maneira de conduzir é que pode tornar o motociclista mais vulnerável ou não", diz.
Mesmo com dados alarmantes, o Brasil não tem sequer um único estudo detalhado sobre o comportamento das motocicletas nas vias. Por enquanto, o maior gasto do país é para remediar. Os custos do Sistema Único de Saúde – SUS – com acidentes de moto subiram em 113% desde 2008, chegaram aos R$ 96 milhões anuais, ante os R$ 45 milhões daquele ano.
Na lógica fria dos números, a matemática torna-se sinistra. Se as motos já passaram das 18 milhões de unidades, de acordo com a Abraciclo, as habilitações não chegam a 10% deste número. São 1.470.600 habilitados na cateroria "A", segundo o Denatran. Para André Horta, analista técnico do Centro de Experimentação e Segurança Viária - Cesvi -, a dificuldade maior é encontrar as causas. Segundo o analista, deve-se isolar as metrópoles do interior, devido às peculiaridades de cada região. André aponta, no entanto, o problema na formação dos motociclistas. “O candidato é praticamente adestrado para passar no exame”, afirma.
Segundo a Associação Brasileira de Motociclistas, a Abram, mais da metade das ocorrências envolvem novos condutores. "O recém-habilitado causa mais acidentes que o motoboy, que está nas ruas o dia inteiro e conhece as peculiaridades das vias", diz o presidente da instituição, Lucas Pimentel. Em São Paulo, os motoboys morrem menos do que se costuma imaginar: são apenas 8% dos casos fatais. Na verdade, a maior incidência de mortes se concentra nas cidades nordestinas. A campeã é – percentualmente – Barbalha, no Ceará, que teve 18 mortes para cada um de seus 55.323 habitantes, em 2011.
Apesar de também reconhecer o treinamento precário, o presidente da Federação Nacional das Autoescolas, Magnelson Carlos de Souza credita os números a outro fator. "A maioria dos acidentes está ligada ao comportamento do condutor. Quando ocorre por falha humana, há três causas: negligência, imprudência e imperícia. No caso das motos, as duas primeiras são as mais recorrentes", diz o presidente da entidade.
Na capital paulista, cidade com a maior frota brasileira – 1,22 milhão de motocicletas na região metropolitana
–, as internações anuais de vítimas de acidentes de moto subiram de 13 mil em 2008 para 19 mil em 2011. O Hospital das Clínicas criou um programa de redução de acidentes, chamado de "HC em Movimento". Uma das coordenadoras do projeto, a Dra. Júlia Greve identifica outro agravante. "A circulação e a velocidade nos corredores também estão relacionadas com o aumento de acidentes e mortes, principalmente em vias expressas", diz a doutora.
Alguns estados norte-americanos proíbem a utilização dos corredores. E lá a mortalidade corresponde a cerca de 30% da brasileira, com o dobro da frota do Brasil. No entanto, Lucas Pimentel não considera esse o ponto crucial. "É mais seguro transitar ao lado dos carros do que atrás, onde o motociclista não tem campo de visão e qualquer obstáculo pode causar um acidente ainda mais grave", afirma.
Devido à demora na implantação de programas de reeducação, Júlia Greve defende que ações imediatas sejam executadas. "Separar as motos dos veículos de grande porte, deslocando-as para vias de menor tráfego, pode ajudar", afirma a médica. Pimentel discorda. "A moto deve ter legislação específica, mas separar não é a solução e pode fazer o motorista ver o motociclista como um rival, um intruso", argumenta. Sem políticas de Estado para reduzir os acidentes e repensar o uso da motocicleta no Brasil, a discussão promete continuar. As mortes também.
Texto: Michael Figueredo/Auto Press